Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Rinoplastia com beijinho

Hoje é um daqueles dias em que se alguém vir com aquele papo de que ficar em casa cuidando de criança é moleza, leva um murro na fuça. Um só, prá desfigurar.

E eu mereço um potinho de flocos de côco com leite condensado.

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16/06/2011 Posted by | colcha de retalhos, diário | 9 Comentários

O teste

Um dia desses, na sala de reabilitação do hospital da coluna, aqui em Seul:

– Agora sobre aqui nessa balança.

– Ok. Segura os pauzinhos?

– Não, ainda não. Agora não se mexe.

Bzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzz

– Ok, agora segura os pauzinhos. E não se mexe.

Bzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzz

– Ok, pode sair da balança. Vou imprimir o resultado. Senta lá na mesa que eu já vou.

Trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr trrrrrrrrrrr trrrrrrrrrrrrr

– Olha, Selma, o resultado da sua impedância não está tão ruim. O condicionamento físico está bom, mas sua musculatura está desbalanceada.

– Desbalanceada? Você quer dizer que meu corpo está desproporcional?

– Hihihi (risada nervosa)… É, mais ou menos isso. A parte superior do seu corpo está super-forte. Alguma razão para isso?

– Ô, Dna Fisioterapeuta, cê se esqueceu que eu te disse que tenho uma filha de 2 anos?

– Ah, é…

– Que mais?

– Bom, e seu tronco e suas pernas estão dentro dos padrões, mas fora de balanço com seus braços, costas e ombros.

– E considerando que eu não tenho como diminuir minha parte superior, tenho que fortalecer o que está mais fraco, e ficar super-mega-forte-tudo-acima-dos-padrões?

– Sim. E tem mais uma coisa.

– Ai…

– O índice de cintura-quadril está bem ruim. Precisa diminuir muito. Está bem acima do limite superior.

– Ai…

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Chegando em casa, jogo no Google a droga do índice cintura-quadril. Descubro que meu índice está dentro dos padrões normais.

Para um homem.

Minha relação cintura-quadril atual é de um homem.

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Resolvi mandar um e-mail para a Madrasta Mãe-Natureza:

Prezada Mãe Natureza,

Tenho percebido que ultimamente meu corpo tem passado por transformações estranhas. Enquanto eu amamentava, a coisa estava muito melhor do que agora. Mas, de uns tempos para cá, ganhei um tronco superior digno de qualquer remador da Raia Olímpica da USP, e um pneu de caminhão na cintura.

Agradeço antecipadamente sua resposta e elucidação deste problema.

Sua Filha,

Selma

Essa Mãe Natureza deve ter um SAC gigantesco, porque a resposta veio rapidinho:

Querida Filha,

Entenda bem: meu trabalho com você está completo. Esqueça o corpo de violão. Você já procriou. Já pariu. Agora, se vira.

Com muito carinho daquela que te ama,

Mãe Natureza

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É impressão minha ou eu tô virando o meu pai?????

04/04/2011 Posted by | colcha de retalhos, Nervoso | 7 Comentários

Sobre crianças, baratas e ovos com pelo*

Eu sempre tive medo e nojo de barata. Não tenho a menor idéia do por quê. Mas, se todo mundo tem, porque eu não teria? E morar no Brasil é aquela velha estória: a cada 50 metros uma tampa de bueiro, e debaixo daquela tampa é melhor nem saber. Mas a gente sabe bem, principalmente no verão. E no abençoado verão, as visitas cascudas aconteciam pelo menos umas duas vezes por semana. Me lembro de uma voadora, gigante, que entrou em casa bem na véspera de Natal. Mesa posta e a cascuda nojenta sobrevoando sobre o bacalhau. E das inúmeras que eu encontrava no quarto, na hora de dormir. Era ela, ou eu. E o meu pai, de chinelo na mão, virava o Sassá Mutema lá de casa.

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E um belo dia, sozinha em casa enquanto tomava banho, me deparo com uma barata subindo pelo vidro do box. Em uma fração de segundo, raciocinei que não adiantava gritar, pois Sassá não estava em casa; ou esperá-lo, porque havia o risco da bicha vir prá cima de mim. Então, tive que agir. Peguei o rodo, espantei ela prá fora da área do chuveiro, desliguei a água, me sequei e fui prá briga. Matei minha primeira barata. O medo se foi, só ficou o nojo.

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Então, depois de um hiato temporal de vinte anos desde a estória da barata, engravidei, comprei aquele monte de livros e passei a me munir de toda e qualquer informação sobre barrigas, crias, tetas e excreções. Úteis e inúteis.

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E ontem, Beatriz completou 26 meses. Não tem como não ter vontade de apertar e beijar o tempo todo! Gosta de dar e receber carinho. Distribui beijos, abraços, e vem para o colo para ganhá-los também.

E, durante esses 26 meses, ela sempre foi um pouco diferente das outras crianças da mesma idade. Beatriz, desde que nasceu, deixou a mãe-nerd-rodeada-de-livros-por-todos-os-lados com os cabelos em pé, e depois no ralo do chuveiro. Beatriz nunca conseguiu rolar de um lado para o outro até que não começou a andar. Engatinhou com 11 meses, andou com 18. Até hoje não conseguiu firmar o andar. Quando corre é meio desengonçada. E não consegue subir degraus com a desenvoltura padrão da idade dela. Adora pular, mas não sabe como fazê-lo. Na semana passada me cortou o coração de vê-la tentar, tentar, tentar, sem conseguir (e começamos a ensiná-la os princípios básicos do salto, para que treine…). Nunca seguiu os padrões médios de crescimento (apesar de nunca deixar de ter crescido e engordado) pelos primeiros 18 meses. E pouco fala. Somente agora é que a língua começou a desenrolar, parte da culpa pela exposição a três línguas diferentes. Ao invés de já formar frases inteligíveis, balbucia suas primeiras palavras como crianças de um ano e pouco.

Seu desenvolvimento motor amplo sempre foi lento. E ela é assim. Talvez eu também tenha sido assim. Tudo obedece ao desenvolvimento do sistema nervoso. E é assim. Mas a cabeça da gente nem sempre é assim, tão simplista e sensata.

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E quando a gente resolve sair do ninho dos pais para morar sozinha, outras coisas além de barata no chuveiro aparecem. Um dia a torneira quebra; no outro, o ralo entope; ou a lâmpada queima. E a gente se mune de algo mais do que um rodo para esmagar uma barata no chuveiro, porque a gente cresce e vira nosso próprio Sassá Mutema.

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Ser mãe e pai é enfrentar um exército de baratas todos os dias. Com depressão pós-parto e falta de experiência, as baratas se tornam um tanto quanto avantajadas. E ser mãe e pai em uma terra distante e diferente, exige que a gente faça doutorado em Sassá Mutemês. Porque não adianta gritar, chorar ou pedir para alguém matar a barata, é o tal do “não tem tu vai tu mesmo”. Há dias em que a gente mata a barata, há outros em que a gente abre a porta e torce para que ela vá embora. E há outros em que a gente ignora a baratilda e passa a conviver com a cascuda como se fosse parte da família.

Os módulos “pânico” e “neurose” precisam ser desligados. Não tem telefone de pediatra prá ligar no meio da noite, e correr para PS é enfrentar um monte de gente que não fala nem gudi mornim. Restam somente os tais livros, uma internet cheia de bobagens. Aliás, jogar no Google a combinação perfeita das palavras-chave do que se procura é pedir para que o resultado seja um ovo peludo, saído direto do ninho de mafagafos. Sim, nem sempre a gente consegue manter o equilíbrio. Vira e mexe aparece um ovo peludo na nossa frente para ligar o alarme. Mas não há espaço ou tempo para desequilíbrio.

Porque, em terra distante onde nem o vento chega, todo minuto de lucidez é precioso.

*Este post é dedicado a toda mãe e pai que, longe ou perto de casa, enfrentam seu exército pessoal de baratas todos os dias. A todos vocês, o meu mais profundo respeito.

01/04/2011 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos, dessa água eu não bebo: eu como com farinha | 17 Comentários

Há dias…

Há dias em que gostaria de ir ao cinema em uma tarde qualquer, comer pipoca e tomar coca-light de máquina desregulada.

Há dias em que gostaria de estar no Brasil e matar uma saudade louca das minhas viagens ao interior, quando esperava ansiosamente pelo pôr-do-sol na beira de um lago qualquer e depois saía pela noite em busca das estrelas.

Há dias em que gostaria de passar o sábado no salão de beleza, arrumando os cabelos e as unhas.

Há dias em que eu não gostaria de fazer nada. Nada.

E, todo dia, eu gostaria de poder fazer meu número 2 de porta fechada, SOZINHA.

26/01/2011 Posted by | colcha de retalhos, Então... | 4 Comentários

O último Bis da caixa

De tudo que é preciso ensinar para os filhos, o maior desafio é ensinar aquilo que pouco se pôs em prática na própria vida.

E para mim, esse desafio é dividir. E não é porque minha mãe não me ensinou a dividir, muito pelo contrário. Se eu estava comendo algo e alguma criança chegava perto – principalmente se fosse alguém na rua que a gente nunca tinha visto – a primeira coisa que ela fazia era pegar o que eu tinha na mão, partir no meio e entregar para a criança. Brincar na casa de alguém, então, era como andar em uma loja de cristais, tamanho o cuidado para não ferir nenhuma das lições da cartilha que ela passava antes de sair de casa.

Eu não protestava e nem desafiava, porque sabia que estava certo e que, se eu protestasse, a coisa ia ficar feia quando chegasse em casa. Mas não estou bem certa se eu gostava da situação. Tenho na lembrança alguns momentos desses que eu sentia meu espaço invadido, meu território tomado. Bem, e a vida é assim mesmo, não? Se a gente não se prepara para as invasões do nosso território, dançamos bonito.

Mas em casa era diferente. Como filha única, não precisava dividir o pedaço de rocambole. Ou a boneca. Ou o chocolate. Se alguém ia brincar em casa era porque EU queria que alguém fosse brincar comigo, então eu dividia os brinquedos porque EU queria. Novamente, minha mãe estava sempre reforçando a importância de dividir, e invariavelmente ela pegava um pedaço de não-sei-o-quê que eu estava comendo, mas não era todo o tempo. Não era como se eu tivesse um irmão para lutar pelo meu espaço.

E aí entra a Beatriz. É muito comum ver as crianças da idade dela berrando quando vem uma outra e toma o brinquedo da mão. Mais do que normal, para pequenos seres egocêntricos. Aí entram as mães com a palavra-padrão: dividir. A mãe do surrupiador (atenção, puristas da língua portuguesa: se essa palavra não existe, valho-me da licença poética para usá-la. Mesmo que escreva em prosa) entra em ação, tira o brinquedo da mão do filho, põe o dedo em riste na cara do pequeno e diz em um tom bem ameaçador “divida!”. A mãe do surrupiado fica entre um quê de vergonha e alívio, muitas vezes tirando o brinquedo da mão do filho e devolvendo ao surrupiante, porque afinal é preciso dividir.

Eu, na minha parca experiência em dividir em minha infância sem irmãos, fico perdida. É óbvio que quando a Beatriz faz o mesmo, eu entro com as duas patas na roda e faço o mesmo que as outras mães. Mas no fundo tudo me parece somente teoria, porque é isso mesmo que eu sinto: que a maioria do que aprendi sobre dividir ficou na teoria. Sem irmãos, a prática não aconteceu. E aí vem o vazio da coisa na hora de ensinar a Beatriz. “Isso, filha, divide com o amiguinho”, enquanto levo a filhota berrando para o canto da sala para que ela esqueça que a brincadeira foi interrompida bruscamente, tentando entender onde começa e termina o direito de brincar com algo que está na sua mão.

Muitos dos amiguinhos dela entendem o que dividir significa, e entendem que eles poderão brincar mais tarde quando o outro terminar. A Beatriz não. Provavelmente porque quase não há oportunidades para que ela aprenda. E para que eu a ensine.

Alguém tem uma luz para acender nesse blog escuro? Alguém?

18/01/2011 Posted by | colcha de retalhos, perguntar não ofende... | 17 Comentários

Fim da hibernação

Urso hiberna porque chegou o frio. Urso hiberna porque sabe que a comida acabou. Urso hiberna para poder sobreviver mais um ano. Eu hibernei, mas já estou acordada!

Foram 2 meses no Brasil, umas duas doenças fora de hora e otras cositas más. Não importa. O que importa é que nossa filhota continua linda, e definitivamente é uma mocinha de quase 2 anos.

Já toma água no copo, direto do bebedouro.

Não senta  mais no cadeirão para comer, e na maioria das vezes recusa comida se vier de mãos alheias. Ou melhor, as minhas.

Aliás, recusa comida. Come como um boi, mas só o que ela quer.

Navega facilmente por todas as suas identidades secretas: de Garota-Pepino para Chiquita-Banana. E nos últimos dias, Nina-Mixirica.

Aprendeu a grudar um ímã em outro. E brigar porque não entende que se um ímã estiver do lado contrário ele repele o outro.

Não fala português, não fala inglês e não fala coreano. Mas fala o dia inteiro. E como fala.

Passou meses indo para o banho como se fosse tortura chinesa. E agora, é a hora mais divertida do dia.

Passou a dormir na caminha. E vez ou outra acorda debaixo dela.

Acorda sozinha, sai do quarto e vai brincar na sala. Ou brincar de fantasma ao lado da cama da mãe.

Mas antes de acordar é preciso dormir. E isso ela não quer mais. Ir para a cama no abençoado horário das 8 da noite, só se não dormir NADA durante o dia. Se não, 10 e meia da noite ainda é dia. Para ela, é claro, porque os pais já estão babando na sala.

E a mãe só quer ir ao banheiro com a porta fechada…

 

 

 

27/12/2010 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos | 7 Comentários

Desculpa de aleijado continua sendo muleta

Broncas e mais broncas transbordando na caixa de entrada pelo sumiço. Pode dizer aí que desculpa de aleijado é muleta, mas ainda uso óleo de peroba na minha fresca tez todo dia de manhã então nem fico vermelha na hora de desfiar o rosário.

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O verão chegou. Com ele, temperaturas médias de 30C. E com tudo isso junto, o nascimento da Filha-Peixa, que aprendeu que brincar na água é uma das melhores coisas da vida.

Mas ainda chora prá lavar o cabelo. Vai entender…

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Cérebro enferrujado de mãe volta à ativa. Finalmente os livros deixam de fazer terapia pela solidão e voltam felizes aos nossos encontros diários:

The One Hundred: A Guide to the Pieces Every Stylish Woman Must Own da Nina Garcia é reservado para o momento do banho da Beatriz. Gosto dele porque é leve, divertido e, por ter as dicas numeradas de 1 a 100, posso lê-lo de trás prá frente. Exatamente com faço com qualquer revista que compro.

A Christmas Carol, de Charles Dickens. A minha estória favorita de Natal. Eu sempre esperava pelo final de ano para poder assistir ao desenho, e ficava apavorada com os fantasmas que apareciam. Mas adorava! E estou à caça do filme com o Bill Murray, lá dos idos de sei lá quando. Mas voltando ao livro: esse fica sobre o criado-mudo, para ler antes de dormir. E sonhar com fantasmas…

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. É a primeira vez que leio Machado de Assis, e fico feliz que esperei tanto tempo! Ele é sensacional, e eu não teria entendido nada se o lesse aos 15 anos de idade! Um escroto cínico, e como diria o marido “tem que ser muito feladapuxa prá escrever assim”! Esse tá no meu iTouch, leitura on the go

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Vida de expatriado também é uma m***a. Principalmente na hora de dizer adeus.

As duas últimas semanas foram difíceis. Muitos amigos queridos indo embora. São laços rompidos de anos muito importantes na nossa vida. Fiquei negação por um tempo, e aos poucos vou recuperando a lucidez e vivendo o luto. E bola prá frente.

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Uma minhoquiNHA fazendo ginastiquiNHA, duas minhoquiNHAS fazendo ginastiquiNHA!

Tetas devidamente esvaziadas e murchas, o modelito Michelin vai lentamente dando adeus. E eu lentamente volto à ativa. Lentamente. Tudo. Lentamente.

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C: Au-au.

B: Mamãe, me dá um cachorrinho?

S: Que mané cachorrinho o quê, menina! Já me bastam esses quatro caninos que resolveram sair da casinha todos de uma vez…

E como se quatro dentes rasgadores de churrasco fossem pouco, ainda vem a frustração pré-andança. E ela vira um macaquinho, trepando nas minhas pernas e querendo se enroscar no meu pescoço.

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Difícil é somar uns minutinhos no dia prá poder escrever. Haja disciplina.

09/07/2010 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos, filminhos | 11 Comentários

Velocidade de dobra*

(para os leitores normais deste blog, clique aqui para saber o que é!)

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Ontem assistimos a Wuthering Heights (em português, O Morro dos Ventos Uivantes), na versão original de 1939, com Laurence Olivier e Marle Oberon. Eu já tinha assistido ao remake de 1992, com Juliete Binoche e Ralph Fiennes, e chorei até virar do avesso. Pois assistir a essa versão de 1939 foi surpreendente, porque a dinâmica do filme era algo muito próximo ao desenho da Branca de Neve, com músicas incidentais orquestradas e diálogos românticos, apaixonados e tirados dos melhores livros de poesia de amor do século retrasado. A estória continuou maravilhosa e assustadoramente trágica, mas o que me pegou mesmo foi o total descompasso da minha mente e do meu corpo com a tal dinâmica. Em um mundo onde eu preciso ser multi-tarefa – afinal, checar e-mails, Facebook, Twitter, LinkedIn, CNN online, lavar a louça, trocar fraldas, lavar o cabelo, jogar Farmville e ainda bater um bolo é tarefa do dia-a-dia – a mente acelera mais do que deveria, o corpo envelhece mais rápido do que deveria, a alma endurece mais do que deveria. Enquanto assistia àqueles diálogos poéticos, os olhares perdidos ao horizonte, o cenário pintado à mão, a iluminação artificial simulando a noite e o desenrolar lento da estória, eu ia mentalmente e fisicamente “empurrando” o filme, para ver se ia mais rápido. Foi o momento da minha epifania. Pensei que em 1939 as pessoas se sentavam às mesas das confeitarias para tomar um café e apreciar o movimento da rua. Ficavam lá por horas, conversando, rindo, vivendo a vida. Tentei, então, relaxar e deixar-me levar pela velocidade da estória e do filme, e com a tal mesa da confeitaria na cabeça, deixei Heathcliff e Cathy me envolverem até o final do filme.

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Tenho lido alguns artigos sobre crianças na pré-escola. Ou melhor, no maternal, ou qualquer que seja a denominação nos dias de hoje. E confesso que foi de cair os pelos do sovaco. Crianças com 2 anos de idade com aulas de inglês e computação? Sendo pré-alfabetizadas? Os pais, entrevistados, aplaudiam os novos currículos das pré-escolas porque não queriam ver seus filhos para trás. Para trás do que? De quem? Quando?

For Christ sake! Por que é que as pessoas acreditam que um currículo desses na vida de uma criança vai influenciar o que ela será em 20 anos???

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A verdade é que nossa vida hoje viaja em velocidade de dobra. Culpa nossa, culpa desta neurose de achar que vamos ficar para trás. Alguém um dia escreveu sobre o Capital Intelectual, e todo mundo acordou para o fato de que quem possui informação é o dono do mundo. E transferimos essa neurose para as nossas crias, querendo que eles absorvam toda a informação disponível e não disponível.

But, guess what! Criança não entende lógica. Criança não entende fórmulas pré-estabelecidas. Criança não segue receita. E tudo isso pela simples razão de que o cérebro delas não é maduro para tanta coisa adulta. Criança aprende brincando, com atividades lúdicas, com empirismo, com erros e acertos. No tempo dela, na velocidade dela. Devagar, muito devagar. Tirar tudo isso de uma criança é um atentado, com consequências ainda não conhecidas.

Quem fica para trás não é quem não teve uma avalanche de informação quando ainda usava fraldas. Quem fica para trás é quem não recebe formação de caráter. Princípios morais e conduta ética não se recebe em escola nenhuma. E um ser humano sem receber o básico dentro de casa, não vai ser dono de porcaria nenhuma. Muito menos do mundo.

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Quando a Beatriz for para a escola, eu vou ser uma mãe muito, muito chata. Me aguardem, tias, me aguardem…

21/06/2010 Posted by | colcha de retalhos, Nervoso | 14 Comentários

Curtas (e grossas)…

… porque eu ‘tô com a paciência por aqui, ó.

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Juro (…) que vai ser a última vez que falo das tetas aqui. Mas ‘tá doendo. Prá burro. Uma semana sem amamentar e as divinas estão me pondo louca. Isso porque a Beatriz estava só mamando um minuto pela manhã e outro pela noite. Me ensinaram a colocar repolho nelas, de preferência congelado. Vou já montar um sutiã repolhudo e depois comer uma saladinha.

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Ah, os hormônios! Eles de novo. E eu achando que tetas doendo por um tempo seria o único reverso da medalha. Lembra toda a revolução que aconteceu aqui? Pois é, a única maneira de sair deste imbroglio é voltar pelo mesmo caminho. We’re moving backwards, for Christ sake!

Tadinho do marido…

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Aí chega a hora da sessão descarrego na gaveta das lingeries. Abre a malinha da ex-barriguda e põe lá dentro todos os sutiãs de gestante, amamentação, sustentação e outros blás. Cinta pós-parto, meias Kendall, calcinhas segura-pança, tudo prá dentro da mala. Hora de rever os velhos amigos do peito. Medo. Encontro na gaveta coisas fazendo aniversário de 15 anos. Outras coisas nem tão velhas, mas tão usadas que não tive coragem de pegá-las. Hora da verdade, na frente do espelho, experimentando os ditos cujos: vou alternando entre riso (nervoso) e choro (desconsolado). Algumas coisas salvas, ainda na esperança de um dia não me espremer dentro delas. O produto final dos risos e choros foi metade para o lixo e metade para a sacola de doações.

E foi assim o meu parto natural, sem intervenções.

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Acho que vou pegar de volta a calcinha segura-pança.

28/05/2010 Posted by | colcha de retalhos, diário | 9 Comentários

Uma vez divinas, sempre divinas

Hoje é dia de dar adeus ao ticker que fica aqui na barra lateral do blog:

Tchau-tchau, reloginho, tchau-tchau!

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As divinas tetas e Beatriz… quanta estória para contar. Quase todas já foram escritas por aqui, outras não. Hoje Beatriz e tetas disseram adeus, se viram pela última vez. Há algum tempo já estavam se preparando para isso, e silenciosamente iam se despedindo aos poucos. A mãe-natureza, sábia com sempre, ajudava dia a dia no processo da separação. Separação sem traumas, sem bruscas rupturas.

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A mãe aqui, vai bem. Sinto que tomei a decisão de parar com a amamentação na hora certa. Poderia amamentar mais? Sem dúvida. Mas não quero.

Mas estou me sentindo estranha. Não sei explicar. Mais do que fechar um ciclo (o das divinas tetas), eu estou encerrando uma fase que se iniciou lá em abril de 2008. Foi inevitável para mim visualizar tudo graficamente: estive grávida por 769 dias, ou 18456 horas, ou 1.107.360 minutos. Nem vou fazer a conta dos segundos. Xô, Prozac.

A partir de amanhã, meu corpo não estará mais grávido. Todos os hormônios voltam a ser como eram há 2 anos. Quero voltar a ser como era há 2 anos? Hell, no!

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Beatriz, as patrulheiras da amamentação vão dizer que você é assim-assado-frito porque você mamou durante 1 ano, 3 meses e 3 semanas. E as defensoras da fórmula e mamadeira vão dizer que você é grelhado-empanado-gratinado porque você ficou pendurada no peito por 1 ano, 3 meses e 3 semanas. Então, deixe sempre à mão o telefone da Dona Terapeuta. Porque a culpa vai ser sempre da mãe!

20/05/2010 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos, diário | 8 Comentários