Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

O último Bis da caixa

De tudo que é preciso ensinar para os filhos, o maior desafio é ensinar aquilo que pouco se pôs em prática na própria vida.

E para mim, esse desafio é dividir. E não é porque minha mãe não me ensinou a dividir, muito pelo contrário. Se eu estava comendo algo e alguma criança chegava perto – principalmente se fosse alguém na rua que a gente nunca tinha visto – a primeira coisa que ela fazia era pegar o que eu tinha na mão, partir no meio e entregar para a criança. Brincar na casa de alguém, então, era como andar em uma loja de cristais, tamanho o cuidado para não ferir nenhuma das lições da cartilha que ela passava antes de sair de casa.

Eu não protestava e nem desafiava, porque sabia que estava certo e que, se eu protestasse, a coisa ia ficar feia quando chegasse em casa. Mas não estou bem certa se eu gostava da situação. Tenho na lembrança alguns momentos desses que eu sentia meu espaço invadido, meu território tomado. Bem, e a vida é assim mesmo, não? Se a gente não se prepara para as invasões do nosso território, dançamos bonito.

Mas em casa era diferente. Como filha única, não precisava dividir o pedaço de rocambole. Ou a boneca. Ou o chocolate. Se alguém ia brincar em casa era porque EU queria que alguém fosse brincar comigo, então eu dividia os brinquedos porque EU queria. Novamente, minha mãe estava sempre reforçando a importância de dividir, e invariavelmente ela pegava um pedaço de não-sei-o-quê que eu estava comendo, mas não era todo o tempo. Não era como se eu tivesse um irmão para lutar pelo meu espaço.

E aí entra a Beatriz. É muito comum ver as crianças da idade dela berrando quando vem uma outra e toma o brinquedo da mão. Mais do que normal, para pequenos seres egocêntricos. Aí entram as mães com a palavra-padrão: dividir. A mãe do surrupiador (atenção, puristas da língua portuguesa: se essa palavra não existe, valho-me da licença poética para usá-la. Mesmo que escreva em prosa) entra em ação, tira o brinquedo da mão do filho, põe o dedo em riste na cara do pequeno e diz em um tom bem ameaçador “divida!”. A mãe do surrupiado fica entre um quê de vergonha e alívio, muitas vezes tirando o brinquedo da mão do filho e devolvendo ao surrupiante, porque afinal é preciso dividir.

Eu, na minha parca experiência em dividir em minha infância sem irmãos, fico perdida. É óbvio que quando a Beatriz faz o mesmo, eu entro com as duas patas na roda e faço o mesmo que as outras mães. Mas no fundo tudo me parece somente teoria, porque é isso mesmo que eu sinto: que a maioria do que aprendi sobre dividir ficou na teoria. Sem irmãos, a prática não aconteceu. E aí vem o vazio da coisa na hora de ensinar a Beatriz. “Isso, filha, divide com o amiguinho”, enquanto levo a filhota berrando para o canto da sala para que ela esqueça que a brincadeira foi interrompida bruscamente, tentando entender onde começa e termina o direito de brincar com algo que está na sua mão.

Muitos dos amiguinhos dela entendem o que dividir significa, e entendem que eles poderão brincar mais tarde quando o outro terminar. A Beatriz não. Provavelmente porque quase não há oportunidades para que ela aprenda. E para que eu a ensine.

Alguém tem uma luz para acender nesse blog escuro? Alguém?

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18/01/2011 - Posted by | colcha de retalhos, perguntar não ofende...

17 Comentários »

  1. Eu tb sou filha única, mas nem acho que o problema seja esse. Acho que algumas crianças (pessoas) tem mais dificuldade em dividir do que outras, independente de terem irmãos ou não. Mas olha, é exercício, é repetição mesmo. eu sempre falei nessa idade que tinha que cada um ter a sua vez e que tinha que aprender a esperar. O balanço tá ocupado? Ou espera ou vai brincar em outro brinquedo. E dentro de casa algumas vezes apelei ( e faço até hoje) para o relógio da cozinha, aquele que marca 5/10 minutos. Explicava que cada um ia ter a sua vez com o brinquedo e que quando tocasse tinha que dar pro amigo. Funciona muito bem e depois de um tempo eles aprendem a take turns. Boa sorte 🙂

    Comentário por Marcela | 18/01/2011 | Responder

    • Obrigada, Marcela! Preciso criar mais situações para exercitar isso, mesmo que seja somente entre nos duas.

      Comentário por Selma | 18/01/2011 | Responder

  2. Ah Selma, como sempre nos duas vivenciando quase as mesmas situaçoes. No meu caso minhas questoes nao exatamente resolvidas, sao em relaçao a alimentaçao e organizaçao. Apesar de saber q minha mãe tem influencia nisso, sei q ela nao é culpada. No que diz respeito a dividir, acredito q aprendi depois de uma certa idade, ja que eu e minha irma temos 6 anos de diferença. Mas fui pra escolinha antes e tal. Com a Julia ainda nem havia pensado nisso, pois o contato com outra criança é qdo ela està na babà, e quem nao sabe dividir é a outra criança. Ai acabo que nem pensando nisso. Bjsss

    Comentário por Laura | 18/01/2011 | Responder

    • Laurita, é como dizem: mãe só muda de endereço. E os problemas são exatamente os mesmos… Ainda bem! 🙂

      Comentário por Selma | 19/01/2011 | Responder

  3. Arruma um irmãozinho urgente ué!Brincadeirinha…

    Comentário por marta | 18/01/2011 | Responder

    • HAHAHA! Eu tinha CERTEZA que você ia escrever isso! HAHAHA!

      Comentário por Selma | 19/01/2011 | Responder

  4. Selma Querida, quando decidi que teria uma só filha tive que me preparar para isso, filha única é única, não divide, é egoísta e se sente sempre como se fosse rainha.
    Por mais que você diga para dividir, não vai aprender, pois você mesma diz isso sem convicção.
    A luz virá com o tempo, ela mesma aprenderá a sobreviver e a dividir, mas saiba que ela só dividirá o que ela quiser e não o que os outros querem.
    Filha única é sempre especial, lembre-se disso.
    Beijos

    Comentário por amarros | 19/01/2011 | Responder

    • Eu sei, eu sou filha única. Mas TEM QUE TER UM JEITO de quebrar a maldição!

      Comentário por Selma | 19/01/2011 | Responder

  5. Selminha, temos filhas da mesmissima idade.

    O dividir e’ dificil. Da vergonha sim, qnd a nossa filha diz NAO! Diz E’ MEU!…

    Da vergonha e minha interferencia e’ a seguinte:

    Filha, da um pedacinho da massinha pro amigo.
    Filha, deixa o amiguinho usar o carro, (pq ela nao esta usando no momento)
    Filha, mostra a boneca pra amiguinha

    Como dividir uma unica boneca que esta nos bracos da nossa filha? Como tirar nossa filha da moto eletrica se ela esta em plena corrida?

    Dividir e’ ensinado por aqui….mas se nao quer dividir, paciencia. Digo pro amiguinho que e’ dela e que depois ele brinca.

    Acho que nunca desmoralizei minha filha na frente de um amiguinho para ela dar ou emprestar o que e’ seu. Apesar de incentivar sempre…digo que e’ amiguinho. digo que amiguinho empresta tudo!

    E qnd e’ o oposto? Qnd e’ nossa filha que quer por que quer a tampa de garrafa do amiguinho? Faco igual. Pergunto se quer dividir..se nao quer, digo logo. Mamae te da uma tampa de plastico depois amor..essa e’ do seu amiguinho.

    Tem outro jeito? desconheco..hehehe..ou prefiro ser assim..beijos querida! Nunca mais apareceu no meu blog hein? http://www.aminhamamae.blogspot.com

    Comentário por Renata | 19/01/2011 | Responder

  6. Eta! Esse assunto da muito pano pra manga. Eu tenho irmaos e minha memoria para o tema divisao nao tras boas recordacoes. Lembro de algumas brigas entre irmaos ja grandes, e acho que meus pais nao se preocupavam muito em esclarecer a situacao e eventualmente “removiam” o motivo da briga sem consultar as partes envolvidas. Imagino a consequencia desses atos pois invariavelmente um saia no prejuizo maior sendo erroneamente punido. Mas aqui estamos, ja adultos e talvez ainda aprendendo. Hoje temos dois bacuris em casa e as palavras dividir, compartilhar, “share”, estao presentes o tempo todo principalmente na frente do Santiago que nao aceita ver o Samuel pegando os brinquedos do irmao mais velho. Acho que no seu caso o melhor seja expor a Beatriz a grupos de criancas com a maior frequencia possivel, e deixa-la entender ha regras em compartilhar com outras criancas. Abracos para voces ai na peninsula.

    Comentário por Helder Paulini | 19/01/2011 | Responder

    • É isso mesmo, Heldim… Sempre aprendendo… E ainda estamos amadurecendo a idéia de colocarmos a Beatriz na escola. Sem dúvida ela precisa aprender isso por outros meios também.

      Comentário por Selma | 19/01/2011 | Responder

  7. Minha querida Selma, voce filha unica, maridão filho unico, sogrona filha unica, gostaria de poder te ajudar, mas faço minha as palavras da amarros. Bjs dos Vovos

    Comentário por Renato | 19/01/2011 | Responder

    • Repito: a maldição precisa ser quebrada!

      Comentário por Selma | 19/01/2011 | Responder

  8. Acho que ser filha única pode até favorecer esse tipo de situação, mas honestamente, não acho fundamental nem definitivo. Acredito mais no temperamento de cada um mesmo e, obviamente, nas experiências que vai tendo (amigos, família, escola, irmãos ou quem seja). Eu tenho um irmão, mas a verdade é que passava muito mais tempo na escola ou com outros amigos do que com ele. Se tive que aprender a dividir foi muito mais com outras pessoas do que com meu irmão. Não encucaria muito com essa questão da “maldição da filha única”…rs. Agora,já que você pediu palpite, como sugestão, acho que para a Beatriz ainda é cedo, mas para mim, as maiores lições que tive nesse sentido foram em visitas a orfanatos para doar meus brinquedos. Conviver com a alegria das outras crianças em receber e brincar com elas me dava vontade de dar tudo (e eu também era criança). Sorte! Besitos

    Comentário por Bianca | 20/01/2011 | Responder

  9. Olha, a nossa Izabel Ayumi sempre foi naturalmente afável no tema dividir quando em contato com outras crianças, mesmo sendo exclusiva da atenção e dos cuidados da avó materna durante 10 horas por dia desde os 4 meses. Fora isso, desde que ela se entende por gente, eu e o Odair rezamos a cartilha com ela. Na verdade, os problemas que ela teve até hoje foram em relação às outras crianças que não queriam dividir com ela. E, mesmo assim, decidimos colocá-la na escola com apenas 1 ano e meio para que ela aprenda a socializar, dividir e entender que o umbigo dela não é o centro do universo. Em 15 dias de aula o saldo é positivo: até o momento, ela tem voltado intacta para casa. Na boa, ela vai aprender quando tiver que aprender. Deixa a coisa rolar naturalmente.

    Comentário por Carlinha | 20/01/2011 | Responder

  10. Vamos ver se agora consigo postar. Sempre tem jeito! Penso que tão importante quanto aprender a dividir é também aprender a respeitar o próprio espaço. Por aqui navegamos pelo mesmo mar, entre as palavras, teorias e as ações. Uma conversa prévia com o filhote antes de irmos a locais públicos costuma ser uma grande aliada. (Nem sempre lembro de tê-la, aí se acontece algo, vai no improviso e no calor do momento mesmo… rs) Explico que os brinquedos do parque são de todos e que precisamos dividir. Entendidas são, postas em prática, nem sempre, mas nada que lembretes no momento em que ocorrem as disputas, não resolvam. Às vezes funcionam na boa, às vezes molham e salgam tudo… Por aqui, respeito o ”é meu”. Tem momentos que ele não quer dividir o que é dele, pois está envolvido com o brinquedo; acredito que é preciso respeitar isso. Pois há momentos em que outras crianças também não querem emprestar para ele os seus brinquedos, e ele precisa saber respeitar o espaço do outro também (e acredito que para que saiba fazer isso, precisa ter o seu próprio espaço respeitado). Só intervenho se o ”é meu” é por nada (só para não deixar o outro brincar – é fácil perceber isso, o outro na sequencia da recusa se interessa por outra coisa e o Vini vai atrás do novo objeto de desejo…. Só lhe pergunto, olha vc não disse que ia brinca com esse que tem na mão? Agora deixa o amigo brincar com o outro… ) Em geral depois disso, ele tenta negociar com o amigo os brinquedos – aí tudo flui na boa e saio de cena. Em casa, aproveito todas as situações práticas possíveis e imagináveis. Papai empresta para ele as ferramentas para ele ver, o celular para ele aprender a tirar fotos. Dividimos os horários da tv, há programas que esperamos ele ver e outros que ele espera que nós vejamos, assim cada um tem o seu momento. (Nada rígido, as vontades vão surgindo, e vamos negociando). A mamãe divide com ele uma fruta, um objeto dela, que ele queira explorar. (Olha isso é meu, mas empresto prá você. E depois você me devolve). Peço brinquedos dele emprestados, ‘brinco’um pouco e devolvo a ele. A escola nos ajuda muito neste sentido, pois eles precisam aprender a dividir atenção da professora com os outros alunos, os brinquedos e materiais para as atividades. Ainda existem as disputas pelos brinquedos e nem sempre elas são amigáveis. Nos dias em que o bicho pega na escola, relembro a ele que deve ir para escola e brincar com os amigos em paz e feliz. Aproveito os desenhos e filmes que ele assiste para sinalizar situações onde há empréstimos, onde as pessoas dividem algo. Uso como exemplos os desenhos que ele mais gosta ou algo que lhe chama muito a atenção. (Algo que os ajuda muito a compreender algo, é tornar a informação concreta. Quando você empresta algo a ela, ela toca o objeto e o devolve a você. Da mesma forma ela percebe que entrega o brinquedo a você e que depois ele retorna a ela – bola é ótimo para isso. Ela pega, joga para você – a bola vai embora – você pega e joga de volta – a bola retorna para ela. Você empresta o brinquedo, a criança brinca e te devolve o brinquedo… O brinquedo dela vai, volta e continua sendo dela. Isso deixa ela entender que o brinquedo continua sendo dela). Aproveito também os livros de estórias que ele tem e vou sinalizando o que desejo educar. Enfim mulher, aproveito tudo o que me aparece nas mãos para reforçar os aprendizados. (Pelo que me disseram na escola, as meninas costumam aprender a dividir mais rápido, pois tendem a brincar mais em grupos que os meninos). No dia do lanche na escola, costumo enviar de vez em quando, balinhas para que ele divida com os amigos. Em casa peço que ele pegue uma fruta para ele e divida com o papai… e por aí vai mulher. Beijão Querida!

    Comentário por Luciana | 25/01/2011 | Responder

  11. Adorei o tema. A Sofia vai fazer dois anos em abril, então são quase da mesma idade. Eu a incentivo a lutar pelo que é dela pq ela deixa toda criança tomar as coisas das suas mãos, mesmo que isso a deixe triste. POr muito tempo ela ficava chorando e pedindo pra eu resolver a situação. Então conosco é assim, se ela está brincando, eu a ajudo a “se defender” e explico pra outra criança que ela pode brincar quando a Sofia terminar, da mesma forma que eu não a deixo tomar brinquedos das mãos de outras crianças. Mas dividir algo que não está usando ou mesmo brincar juntos, isso eu sempre apoio, mesmo vendo que aqui, nos lugares que frequentamos, haja um certo individualismo em relaçâo a isso.
    Ah, e eu tb vou nr. 2 com a porta aberta… 🙂
    Beijos,
    IOne

    Comentário por Ione | 07/02/2011 | Responder


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