Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Velocidade de dobra*

(para os leitores normais deste blog, clique aqui para saber o que é!)

*****

Ontem assistimos a Wuthering Heights (em português, O Morro dos Ventos Uivantes), na versão original de 1939, com Laurence Olivier e Marle Oberon. Eu já tinha assistido ao remake de 1992, com Juliete Binoche e Ralph Fiennes, e chorei até virar do avesso. Pois assistir a essa versão de 1939 foi surpreendente, porque a dinâmica do filme era algo muito próximo ao desenho da Branca de Neve, com músicas incidentais orquestradas e diálogos românticos, apaixonados e tirados dos melhores livros de poesia de amor do século retrasado. A estória continuou maravilhosa e assustadoramente trágica, mas o que me pegou mesmo foi o total descompasso da minha mente e do meu corpo com a tal dinâmica. Em um mundo onde eu preciso ser multi-tarefa – afinal, checar e-mails, Facebook, Twitter, LinkedIn, CNN online, lavar a louça, trocar fraldas, lavar o cabelo, jogar Farmville e ainda bater um bolo é tarefa do dia-a-dia – a mente acelera mais do que deveria, o corpo envelhece mais rápido do que deveria, a alma endurece mais do que deveria. Enquanto assistia àqueles diálogos poéticos, os olhares perdidos ao horizonte, o cenário pintado à mão, a iluminação artificial simulando a noite e o desenrolar lento da estória, eu ia mentalmente e fisicamente “empurrando” o filme, para ver se ia mais rápido. Foi o momento da minha epifania. Pensei que em 1939 as pessoas se sentavam às mesas das confeitarias para tomar um café e apreciar o movimento da rua. Ficavam lá por horas, conversando, rindo, vivendo a vida. Tentei, então, relaxar e deixar-me levar pela velocidade da estória e do filme, e com a tal mesa da confeitaria na cabeça, deixei Heathcliff e Cathy me envolverem até o final do filme.

*****

Tenho lido alguns artigos sobre crianças na pré-escola. Ou melhor, no maternal, ou qualquer que seja a denominação nos dias de hoje. E confesso que foi de cair os pelos do sovaco. Crianças com 2 anos de idade com aulas de inglês e computação? Sendo pré-alfabetizadas? Os pais, entrevistados, aplaudiam os novos currículos das pré-escolas porque não queriam ver seus filhos para trás. Para trás do que? De quem? Quando?

For Christ sake! Por que é que as pessoas acreditam que um currículo desses na vida de uma criança vai influenciar o que ela será em 20 anos???

*****

A verdade é que nossa vida hoje viaja em velocidade de dobra. Culpa nossa, culpa desta neurose de achar que vamos ficar para trás. Alguém um dia escreveu sobre o Capital Intelectual, e todo mundo acordou para o fato de que quem possui informação é o dono do mundo. E transferimos essa neurose para as nossas crias, querendo que eles absorvam toda a informação disponível e não disponível.

But, guess what! Criança não entende lógica. Criança não entende fórmulas pré-estabelecidas. Criança não segue receita. E tudo isso pela simples razão de que o cérebro delas não é maduro para tanta coisa adulta. Criança aprende brincando, com atividades lúdicas, com empirismo, com erros e acertos. No tempo dela, na velocidade dela. Devagar, muito devagar. Tirar tudo isso de uma criança é um atentado, com consequências ainda não conhecidas.

Quem fica para trás não é quem não teve uma avalanche de informação quando ainda usava fraldas. Quem fica para trás é quem não recebe formação de caráter. Princípios morais e conduta ética não se recebe em escola nenhuma. E um ser humano sem receber o básico dentro de casa, não vai ser dono de porcaria nenhuma. Muito menos do mundo.

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Quando a Beatriz for para a escola, eu vou ser uma mãe muito, muito chata. Me aguardem, tias, me aguardem…

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21/06/2010 - Posted by | colcha de retalhos, Nervoso

14 Comentários »

  1. Selmaaa! Quanto tempo! 🙂

    Olha, essa preocupação dos pais em não deixar os filhos “pra trás” é até compreensível. Veja a Coreia. Como é difícil pro povo aqui fugir do esquema! Porque do maternal à universidade o sistema é cruel, e avalia números e notas que o moleque tira nas avaliações mecânicas deles.

    Tem também a tal “janela de oportunidade”. Assisti uma palestra de um neurologista uma vez sobre isso e achei interessante. Segundo os pesquisadores que advogam esta teoria, tem um “período crítico” pra se desenvolver certas habilidades para o resto da vida. Não lembro os números, mas é tipo até os 6 anos a criança vai desenvolver sua capacidade matemática, até os 5 a capacidade musical, e por aí vai… Lembro que na lista tinha até “senso de honestidade, caráter”, algo assim… e a idade limite, segundo os caras, era 4 anos! Não que não se aprenda nada depois, mas são períodos críticos.

    Só que eu acho que o papel dos pais é muito mais importante que da escola. Por exemplo, quando eu tinha 5 anos, meu pai ensinou eu e minha irmã a somar e subtrair num ábaco gigante e complexo que ele tinha ganhado de um japonês. Pra mim, passar aqueles momentos fazendo contas com meu pai era pura diversão! Quando cheguei no pré-primário já sabia fazer conta de milhares, e a turma tava aprendendo a contar até 100. Depois, nunca tive problemas com matemática na escola minha vida toda, apesar de não querer estudar nada na área na faculdade.

    O Renato com certeza vai estimular a Beatriz a distinguir as notas musicais bem cedo, coisa que eu não aprendi quando era moleque, e por isso nunca saí do basicão nas aulas de violão na adolescência.

    Mas concordo com você que os pais não devem se preocupar com isso. Tem que ser natural, na brincadeira, enquanto passam seus melhores momentos em casa… ^^

    Beijo!

    Comentário por Henrique | 21/06/2010 | Responder

  2. Também sinto isso, parece até que vão colocar no currículo com quantos anos saíram das fraldas, aprenderam a se vestir sozinhos… Aqui estamos entrando na fase escolar, Julia começa depois das férias de verão na pré-escola. Ainda não é alfabetização, mas também não é jardim de infância. Pra te falar a verdade nem eu descobri ainda o que é 🙂 Mas o que eu quero é que ela aproveite o “ser criança”. Bjs

    Comentário por Marcela | 21/06/2010 | Responder

  3. Selminha, Leia o que Rudolf Stneir ou as escolas antroposóficas dizem a respeito destes aprendizados precoces… Bem rápido: é um desrespeito à alma do ser em formação e seria justamente essa uma das razões que muitos seres lá na frente (21 anos + -), passam longe, bem longe de saber o que é respeito a si mesmo e ao próximo… Tem algumas coisas da escola antroposófica que acho exagero ou não entendo direito, mas algumas me parecem fazer muito sentido… Abraços! Luciana

    Comentário por Luciana | 22/06/2010 | Responder

  4. Terá todo meu apoio de madrinha chata, muiiiiiiiiiiito chata mesmo, daquelas que questionam e justificam com certeza ! Beijos e muita força!

    Comentário por marta | 22/06/2010 | Responder

  5. Acho isso um absurdo, por isso coloquei a Gabi em uma creche da pública, em que as crianças brincam na terra e na areia, assistem no máximo uma hora de desenhos e não tem cobrança pra ver quem fala antes.
    Criança tem que aprender brincando, e aprender a mexer em computador somente quando tiv er idade para isso. De que adianta saber tocar mozart aos três anos e achar que o mundo gira em torno do próprio umbigo? Sou mais do sistema antigo, de quando se aprendia a ler, contar e respeitar em casa e a escola só complementava.

    beijos

    Comentário por Amanda | 22/06/2010 | Responder

  6. Ontem assisti pelo Google videos uma palestra do filosofo Mario Sergio Cortella (Gravação do programa tv Cultura “Café Filosofico”) onde ele fala das mudanças na educação e na convivencia da familia. Tem tudo a ver com o que voce escreveu.

    Comentário por picida ribeiro | 22/06/2010 | Responder

  7. Pois é Selma…
    na nossa época não existia DVD, celular, CD, computador/internet, Tv a Cabo, e milhões de outras coisas ( me lembro que demorou para aparecer o vídeo cassete…). Aí veio a “Evolução”, numa avalanche e acho que querem que as crianças conheçam tudo isso antes de usar a fralda tamanho M…
    Me preocupa esse tipo de imposição e cobrança em cima dos pequenos.
    É muita informação e a infância desaparece…
    Eu só andei em carro importado quando tinha 15 anos e o Matheus com 2,5 dias de nascimento.
    Eu me assusto um pouco com esse jato de informações em crianças tão pequenas.
    Elas já aprendem desde cedo que tem que ser melhor que o outro independente de quantos tapetes terão que puxar…
    Podia ser menos complicado…

    Comentário por Isabel | 23/06/2010 | Responder

  8. PS***ERREI “Eu só andei em carro importado quando tinha 25anos ………

    Comentário por Isabel | 23/06/2010 | Responder

  9. Tô muito contigo:

    “Quem fica para trás não é quem não teve uma avalanche de informação quando ainda usava fraldas. Quem fica para trás é quem não recebe formação de caráter. Princípios morais e conduta ética não se recebe em escola nenhuma. E um ser humano sem receber o básico dentro de casa, não vai ser dono de porcaria nenhuma. Muito menos do mundo.”

    Fiquei em casa também no último ano para cuidar mais de Alice, sabe? Não entregar meu tesouro a uma creche ou a uma babá. Opção. Já já volto à “vida”, mas com pesar. Quanto mais eu tenho tempo com ela, mais me deslumbro com o simples, com o óbvio da vida.

    Comentário por Alena Cairo | 26/06/2010 | Responder

  10. Ah, só pra avisar. Vou te linkar lá no meu blog, ok? Adorei seu texto.
    bj
    Roberta

    Comentário por Roberta | 28/06/2010 | Responder

  11. Sendo professora e sabendo como trabalho, nem me importava de ter a Selma como mãe:)na minha creche eles dormem, a gente dá colinho, de vez em quando vemos TV, brincamos, comemos, cantamos, jogamos bola e andamos de velotrol. prá mim falta a terra, as minhocas, as folhinhas e brincadeira de água mas pelo espaço físico, tá ótimo!

    Comentário por Marina | 29/06/2010 | Responder

  12. hahahaahaha, vc vai virar a famosa “louca da mãe da beatriz” hi hi hi!
    deixa a gurizada brincar, porra!
    até onde eu sei, a idéia é eles ficarem brincando com o tal lúdico enquanto a gente paga os tubos de mensalidade…não é assim que funciona, gente?
    eu pago as calças pelo fdp do lúdico, mas acho que vale a pena.
    beijo grande e valeu pelas sweet words quando noah estava dodói, viu?

    Comentário por piscardeolhos | 01/07/2010 | Responder

  13. Ei, Selma!
    Adorei… Não conhecia o termo Velocidade de Dobra, mas vejo constantemente a Ansiedade de Informação, a neurose do momento, da qual eu sofro.
    Dá pra ser criança nesses tempos???
    Dá pra ser adulto nesses tempor?
    Dá pra ser saudável nesses tempos?
    Quantas dúvidas…
    Bjo!

    Comentário por Lile | 06/07/2010 | Responder

  14. tá sumida!!!?

    Comentário por renata | 06/07/2010 | Responder


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