Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Velocidade de dobra*

(para os leitores normais deste blog, clique aqui para saber o que é!)

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Ontem assistimos a Wuthering Heights (em português, O Morro dos Ventos Uivantes), na versão original de 1939, com Laurence Olivier e Marle Oberon. Eu já tinha assistido ao remake de 1992, com Juliete Binoche e Ralph Fiennes, e chorei até virar do avesso. Pois assistir a essa versão de 1939 foi surpreendente, porque a dinâmica do filme era algo muito próximo ao desenho da Branca de Neve, com músicas incidentais orquestradas e diálogos românticos, apaixonados e tirados dos melhores livros de poesia de amor do século retrasado. A estória continuou maravilhosa e assustadoramente trágica, mas o que me pegou mesmo foi o total descompasso da minha mente e do meu corpo com a tal dinâmica. Em um mundo onde eu preciso ser multi-tarefa – afinal, checar e-mails, Facebook, Twitter, LinkedIn, CNN online, lavar a louça, trocar fraldas, lavar o cabelo, jogar Farmville e ainda bater um bolo é tarefa do dia-a-dia – a mente acelera mais do que deveria, o corpo envelhece mais rápido do que deveria, a alma endurece mais do que deveria. Enquanto assistia àqueles diálogos poéticos, os olhares perdidos ao horizonte, o cenário pintado à mão, a iluminação artificial simulando a noite e o desenrolar lento da estória, eu ia mentalmente e fisicamente “empurrando” o filme, para ver se ia mais rápido. Foi o momento da minha epifania. Pensei que em 1939 as pessoas se sentavam às mesas das confeitarias para tomar um café e apreciar o movimento da rua. Ficavam lá por horas, conversando, rindo, vivendo a vida. Tentei, então, relaxar e deixar-me levar pela velocidade da estória e do filme, e com a tal mesa da confeitaria na cabeça, deixei Heathcliff e Cathy me envolverem até o final do filme.

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Tenho lido alguns artigos sobre crianças na pré-escola. Ou melhor, no maternal, ou qualquer que seja a denominação nos dias de hoje. E confesso que foi de cair os pelos do sovaco. Crianças com 2 anos de idade com aulas de inglês e computação? Sendo pré-alfabetizadas? Os pais, entrevistados, aplaudiam os novos currículos das pré-escolas porque não queriam ver seus filhos para trás. Para trás do que? De quem? Quando?

For Christ sake! Por que é que as pessoas acreditam que um currículo desses na vida de uma criança vai influenciar o que ela será em 20 anos???

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A verdade é que nossa vida hoje viaja em velocidade de dobra. Culpa nossa, culpa desta neurose de achar que vamos ficar para trás. Alguém um dia escreveu sobre o Capital Intelectual, e todo mundo acordou para o fato de que quem possui informação é o dono do mundo. E transferimos essa neurose para as nossas crias, querendo que eles absorvam toda a informação disponível e não disponível.

But, guess what! Criança não entende lógica. Criança não entende fórmulas pré-estabelecidas. Criança não segue receita. E tudo isso pela simples razão de que o cérebro delas não é maduro para tanta coisa adulta. Criança aprende brincando, com atividades lúdicas, com empirismo, com erros e acertos. No tempo dela, na velocidade dela. Devagar, muito devagar. Tirar tudo isso de uma criança é um atentado, com consequências ainda não conhecidas.

Quem fica para trás não é quem não teve uma avalanche de informação quando ainda usava fraldas. Quem fica para trás é quem não recebe formação de caráter. Princípios morais e conduta ética não se recebe em escola nenhuma. E um ser humano sem receber o básico dentro de casa, não vai ser dono de porcaria nenhuma. Muito menos do mundo.

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Quando a Beatriz for para a escola, eu vou ser uma mãe muito, muito chata. Me aguardem, tias, me aguardem…

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21/06/2010 Posted by | colcha de retalhos, Nervoso | 14 Comentários

Nem pense nisso, mocinha…

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06/06/2010 Posted by | Beatriz, fotinhas, perguntar não ofende... | 9 Comentários