Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Sobre crianças, baratas e ovos com pelo*

Eu sempre tive medo e nojo de barata. Não tenho a menor idéia do por quê. Mas, se todo mundo tem, porque eu não teria? E morar no Brasil é aquela velha estória: a cada 50 metros uma tampa de bueiro, e debaixo daquela tampa é melhor nem saber. Mas a gente sabe bem, principalmente no verão. E no abençoado verão, as visitas cascudas aconteciam pelo menos umas duas vezes por semana. Me lembro de uma voadora, gigante, que entrou em casa bem na véspera de Natal. Mesa posta e a cascuda nojenta sobrevoando sobre o bacalhau. E das inúmeras que eu encontrava no quarto, na hora de dormir. Era ela, ou eu. E o meu pai, de chinelo na mão, virava o Sassá Mutema lá de casa.

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E um belo dia, sozinha em casa enquanto tomava banho, me deparo com uma barata subindo pelo vidro do box. Em uma fração de segundo, raciocinei que não adiantava gritar, pois Sassá não estava em casa; ou esperá-lo, porque havia o risco da bicha vir prá cima de mim. Então, tive que agir. Peguei o rodo, espantei ela prá fora da área do chuveiro, desliguei a água, me sequei e fui prá briga. Matei minha primeira barata. O medo se foi, só ficou o nojo.

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Então, depois de um hiato temporal de vinte anos desde a estória da barata, engravidei, comprei aquele monte de livros e passei a me munir de toda e qualquer informação sobre barrigas, crias, tetas e excreções. Úteis e inúteis.

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E ontem, Beatriz completou 26 meses. Não tem como não ter vontade de apertar e beijar o tempo todo! Gosta de dar e receber carinho. Distribui beijos, abraços, e vem para o colo para ganhá-los também.

E, durante esses 26 meses, ela sempre foi um pouco diferente das outras crianças da mesma idade. Beatriz, desde que nasceu, deixou a mãe-nerd-rodeada-de-livros-por-todos-os-lados com os cabelos em pé, e depois no ralo do chuveiro. Beatriz nunca conseguiu rolar de um lado para o outro até que não começou a andar. Engatinhou com 11 meses, andou com 18. Até hoje não conseguiu firmar o andar. Quando corre é meio desengonçada. E não consegue subir degraus com a desenvoltura padrão da idade dela. Adora pular, mas não sabe como fazê-lo. Na semana passada me cortou o coração de vê-la tentar, tentar, tentar, sem conseguir (e começamos a ensiná-la os princípios básicos do salto, para que treine…). Nunca seguiu os padrões médios de crescimento (apesar de nunca deixar de ter crescido e engordado) pelos primeiros 18 meses. E pouco fala. Somente agora é que a língua começou a desenrolar, parte da culpa pela exposição a três línguas diferentes. Ao invés de já formar frases inteligíveis, balbucia suas primeiras palavras como crianças de um ano e pouco.

Seu desenvolvimento motor amplo sempre foi lento. E ela é assim. Talvez eu também tenha sido assim. Tudo obedece ao desenvolvimento do sistema nervoso. E é assim. Mas a cabeça da gente nem sempre é assim, tão simplista e sensata.

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E quando a gente resolve sair do ninho dos pais para morar sozinha, outras coisas além de barata no chuveiro aparecem. Um dia a torneira quebra; no outro, o ralo entope; ou a lâmpada queima. E a gente se mune de algo mais do que um rodo para esmagar uma barata no chuveiro, porque a gente cresce e vira nosso próprio Sassá Mutema.

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Ser mãe e pai é enfrentar um exército de baratas todos os dias. Com depressão pós-parto e falta de experiência, as baratas se tornam um tanto quanto avantajadas. E ser mãe e pai em uma terra distante e diferente, exige que a gente faça doutorado em Sassá Mutemês. Porque não adianta gritar, chorar ou pedir para alguém matar a barata, é o tal do “não tem tu vai tu mesmo”. Há dias em que a gente mata a barata, há outros em que a gente abre a porta e torce para que ela vá embora. E há outros em que a gente ignora a baratilda e passa a conviver com a cascuda como se fosse parte da família.

Os módulos “pânico” e “neurose” precisam ser desligados. Não tem telefone de pediatra prá ligar no meio da noite, e correr para PS é enfrentar um monte de gente que não fala nem gudi mornim. Restam somente os tais livros, uma internet cheia de bobagens. Aliás, jogar no Google a combinação perfeita das palavras-chave do que se procura é pedir para que o resultado seja um ovo peludo, saído direto do ninho de mafagafos. Sim, nem sempre a gente consegue manter o equilíbrio. Vira e mexe aparece um ovo peludo na nossa frente para ligar o alarme. Mas não há espaço ou tempo para desequilíbrio.

Porque, em terra distante onde nem o vento chega, todo minuto de lucidez é precioso.

*Este post é dedicado a toda mãe e pai que, longe ou perto de casa, enfrentam seu exército pessoal de baratas todos os dias. A todos vocês, o meu mais profundo respeito.

01/04/2011 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos, dessa água eu não bebo: eu como com farinha | 17 Comentários