Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

O teste

Um dia desses, na sala de reabilitação do hospital da coluna, aqui em Seul:

– Agora sobre aqui nessa balança.

– Ok. Segura os pauzinhos?

– Não, ainda não. Agora não se mexe.

Bzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzz

– Ok, agora segura os pauzinhos. E não se mexe.

Bzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzzzzzzzzzzbzzzzzzz

– Ok, pode sair da balança. Vou imprimir o resultado. Senta lá na mesa que eu já vou.

Trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr trrrrrrrrrrr trrrrrrrrrrrrr

– Olha, Selma, o resultado da sua impedância não está tão ruim. O condicionamento físico está bom, mas sua musculatura está desbalanceada.

– Desbalanceada? Você quer dizer que meu corpo está desproporcional?

– Hihihi (risada nervosa)… É, mais ou menos isso. A parte superior do seu corpo está super-forte. Alguma razão para isso?

– Ô, Dna Fisioterapeuta, cê se esqueceu que eu te disse que tenho uma filha de 2 anos?

– Ah, é…

– Que mais?

– Bom, e seu tronco e suas pernas estão dentro dos padrões, mas fora de balanço com seus braços, costas e ombros.

– E considerando que eu não tenho como diminuir minha parte superior, tenho que fortalecer o que está mais fraco, e ficar super-mega-forte-tudo-acima-dos-padrões?

– Sim. E tem mais uma coisa.

– Ai…

– O índice de cintura-quadril está bem ruim. Precisa diminuir muito. Está bem acima do limite superior.

– Ai…

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Chegando em casa, jogo no Google a droga do índice cintura-quadril. Descubro que meu índice está dentro dos padrões normais.

Para um homem.

Minha relação cintura-quadril atual é de um homem.

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Resolvi mandar um e-mail para a Madrasta Mãe-Natureza:

Prezada Mãe Natureza,

Tenho percebido que ultimamente meu corpo tem passado por transformações estranhas. Enquanto eu amamentava, a coisa estava muito melhor do que agora. Mas, de uns tempos para cá, ganhei um tronco superior digno de qualquer remador da Raia Olímpica da USP, e um pneu de caminhão na cintura.

Agradeço antecipadamente sua resposta e elucidação deste problema.

Sua Filha,

Selma

Essa Mãe Natureza deve ter um SAC gigantesco, porque a resposta veio rapidinho:

Querida Filha,

Entenda bem: meu trabalho com você está completo. Esqueça o corpo de violão. Você já procriou. Já pariu. Agora, se vira.

Com muito carinho daquela que te ama,

Mãe Natureza

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É impressão minha ou eu tô virando o meu pai?????

04/04/2011 Posted by | colcha de retalhos, Nervoso | 7 Comentários

Velocidade de dobra*

(para os leitores normais deste blog, clique aqui para saber o que é!)

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Ontem assistimos a Wuthering Heights (em português, O Morro dos Ventos Uivantes), na versão original de 1939, com Laurence Olivier e Marle Oberon. Eu já tinha assistido ao remake de 1992, com Juliete Binoche e Ralph Fiennes, e chorei até virar do avesso. Pois assistir a essa versão de 1939 foi surpreendente, porque a dinâmica do filme era algo muito próximo ao desenho da Branca de Neve, com músicas incidentais orquestradas e diálogos românticos, apaixonados e tirados dos melhores livros de poesia de amor do século retrasado. A estória continuou maravilhosa e assustadoramente trágica, mas o que me pegou mesmo foi o total descompasso da minha mente e do meu corpo com a tal dinâmica. Em um mundo onde eu preciso ser multi-tarefa – afinal, checar e-mails, Facebook, Twitter, LinkedIn, CNN online, lavar a louça, trocar fraldas, lavar o cabelo, jogar Farmville e ainda bater um bolo é tarefa do dia-a-dia – a mente acelera mais do que deveria, o corpo envelhece mais rápido do que deveria, a alma endurece mais do que deveria. Enquanto assistia àqueles diálogos poéticos, os olhares perdidos ao horizonte, o cenário pintado à mão, a iluminação artificial simulando a noite e o desenrolar lento da estória, eu ia mentalmente e fisicamente “empurrando” o filme, para ver se ia mais rápido. Foi o momento da minha epifania. Pensei que em 1939 as pessoas se sentavam às mesas das confeitarias para tomar um café e apreciar o movimento da rua. Ficavam lá por horas, conversando, rindo, vivendo a vida. Tentei, então, relaxar e deixar-me levar pela velocidade da estória e do filme, e com a tal mesa da confeitaria na cabeça, deixei Heathcliff e Cathy me envolverem até o final do filme.

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Tenho lido alguns artigos sobre crianças na pré-escola. Ou melhor, no maternal, ou qualquer que seja a denominação nos dias de hoje. E confesso que foi de cair os pelos do sovaco. Crianças com 2 anos de idade com aulas de inglês e computação? Sendo pré-alfabetizadas? Os pais, entrevistados, aplaudiam os novos currículos das pré-escolas porque não queriam ver seus filhos para trás. Para trás do que? De quem? Quando?

For Christ sake! Por que é que as pessoas acreditam que um currículo desses na vida de uma criança vai influenciar o que ela será em 20 anos???

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A verdade é que nossa vida hoje viaja em velocidade de dobra. Culpa nossa, culpa desta neurose de achar que vamos ficar para trás. Alguém um dia escreveu sobre o Capital Intelectual, e todo mundo acordou para o fato de que quem possui informação é o dono do mundo. E transferimos essa neurose para as nossas crias, querendo que eles absorvam toda a informação disponível e não disponível.

But, guess what! Criança não entende lógica. Criança não entende fórmulas pré-estabelecidas. Criança não segue receita. E tudo isso pela simples razão de que o cérebro delas não é maduro para tanta coisa adulta. Criança aprende brincando, com atividades lúdicas, com empirismo, com erros e acertos. No tempo dela, na velocidade dela. Devagar, muito devagar. Tirar tudo isso de uma criança é um atentado, com consequências ainda não conhecidas.

Quem fica para trás não é quem não teve uma avalanche de informação quando ainda usava fraldas. Quem fica para trás é quem não recebe formação de caráter. Princípios morais e conduta ética não se recebe em escola nenhuma. E um ser humano sem receber o básico dentro de casa, não vai ser dono de porcaria nenhuma. Muito menos do mundo.

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Quando a Beatriz for para a escola, eu vou ser uma mãe muito, muito chata. Me aguardem, tias, me aguardem…

21/06/2010 Posted by | colcha de retalhos, Nervoso | 14 Comentários

Se eu te pego…

A Selma hoje me traz notícias frescas do front da convenção semanal de bebês…

Diz que, durante um dos convescotes nenesísticos, um dos meninos “grandinhos” (entenda-se com cerca de 2 anos de idade), filho de uma coreana e de um suíço, começou com umas idéias erradas pra cima da Beatriz.

Não, ele ainda não está dando em cima dela. Na verdade, é o contrário: por causa de um carrinho que a Beatriz tem, o pequeno empiastro (acho que minha vó usava esse termo) armou um barraco, querendo o carrinho pra ele, depois chutando-o violentamente e, a seguir, descendo a mão na Beatriz.

A Selma conseguiu resgatá-la quase a tempo, mas sem poder evitar que ele lograsse um tapa na perna de nossa filhota, a qual, obviamente, abriu o berreiro.

Ele tem 2 anos; ela, 6 meses…

A mãe, uma dessas patsas modernas adepta da psicologia Ursinho Puff (ou “Pooh” para os mais atuais), manda aquela frasezinha típica: “Filho, a mamãe n-ã-o gosta assim”, o que é prontamente ignorado pelo fedelho, que retorna à sua atividade sádica predileta que é se aproveitar de quem é menor.

Claro, toda criança passa por isso mais cedo ou mais tarde. Sempre vai ter alguém mais agressivo(a) que vai querer se impor, principalmente valendo-se do tamanho: eu sou maior, então você submeta-se a mim. A Natureza é assim…mas é de pequeno que aprendemos coisas básicas: o que é dos outros não é meu; se eu quiser brincar tenho que pedir; não se bate nos outros; etc.

Em relação a “não se bate nos outros”, tudo depende da sequência dos fatos. Não se “começa” a bater nos outros mas, se alguém te bater, você não vai ficar lá olhando e esperando o próximo tapa. Eu sei, se te baterem na esquerda, ofereça a direita e vice-versa…mas ofereça junto a sua MÃO direita, bem dada.

Eu tive problemas quando era bem pequeno, e era difícil pra mim revidar. Meu pai falava: “Nato, não é pra brigar. Mas tem que se defender. E lembre-se: é pra dar UMA SÓ”, ou seja, é pra acabar ali. Com o tempo, eu fui aprendendo e, felizmente, nunca precisei entrar em nenhuma briga séria.

Obviamente, a Beatriz está longe dessa fase. Mas nem eu nem a patroa temos sangue de barata. A Selma, imediatamente, interferiu e comeu o toco do moleque. A mãe dele, meio sem graça, vem com aquelas conversas de escolinha pedagógica: “Ah, sabe, entenda, ele fica muito tempo dentro de casa”…

Essa desculpa é boa. Ele fica acorrentado na parede, com focinheira e camisa de força? Quando solta o bicho ele fica loucão e sai que nem um rolo compressor por cima de todo mundo (que é menor que ele, bem entendido)? Esse mundo me diverte…

A sorte do pequeno mancebo (e da mãe dele) é que eu não estava por lá. Eu teria agarrado a mão do valente e gritado um “NÃO! NO! ANNYO!” com uma das minhas caras de zumbi-louco (quem me conhece sabe o que é isso) que faria ele perder o rumo por uns 15 segundos, antes de ele sair correndo chorando pra mãe (e tendo certeza que durante pelo menos os próximos 10 anos ele teria pesadelos recorrentes com o zumbi branco sanguinário).

É impressão minha ou tudo se inverteu mesmo? Eu disse pra Selma que é capaz de a mãe, ao invés de dizer o tradicional “Se você bater nela vai ficar de castigo / não vai ver TV / não vai tomar sorvete / etc. ” é capaz de dizer “Se você NÃO bater nela, eu te compro um brinquedo novo”. É chantagear o bandido como se ele estivesse no seu direito, e não prevenir o meliante com a ameaça da cadeia. Pelamordedeus! Como diria uma das leitoras aqui do Sentada na Pia, a Laura, “olha, espera um pouco que eu vou ali dar uma suicidada e já volto”…

E as educadoras modernas de plantão que seguem a linha do “tudo é lindo, vamos conversar, vamos fazer uma troca, e outras baboseiras” que perdoem o ignorante pai de primeira viagem mas, na minha humilde opinião, não tem essa de “negociação”. Não se negocia com terroristas com quem ainda não conhece limites. Primeiro, você impõe os limites. Depois, podemos até pensar em discutir opções (que mané negociar, que).

Enquanto minha filha não puder se defender sozinha, vai ter criança que vai dançar miúdo com o tio nervosão aqui. E se for arrumar confusão com os pais, eles que me desculpem também. Se vocês não dão um jeito nos seus descendentes, deixem eles longe.

E se a Beatriz um dia armar pra cima de outra criança do mesmo jeito que esse individuozinho, ela vai escutar um monte, com certeza.

“Mas você tem que entender”…sei, eu entendo. Peraí que, no aniversário do seu pequeno orc, eu compro um DVD pra ele: “O Silêncio dos Inocentes”

Molequedozinferno, se eu te pego…

23/08/2009 Posted by | diário, Então..., Nervoso | 19 Comentários