Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Há dias…

Há dias em que gostaria de ir ao cinema em uma tarde qualquer, comer pipoca e tomar coca-light de máquina desregulada.

Há dias em que gostaria de estar no Brasil e matar uma saudade louca das minhas viagens ao interior, quando esperava ansiosamente pelo pôr-do-sol na beira de um lago qualquer e depois saía pela noite em busca das estrelas.

Há dias em que gostaria de passar o sábado no salão de beleza, arrumando os cabelos e as unhas.

Há dias em que eu não gostaria de fazer nada. Nada.

E, todo dia, eu gostaria de poder fazer meu número 2 de porta fechada, SOZINHA.

26/01/2011 Posted by | colcha de retalhos, Então... | 4 Comentários

O último Bis da caixa

De tudo que é preciso ensinar para os filhos, o maior desafio é ensinar aquilo que pouco se pôs em prática na própria vida.

E para mim, esse desafio é dividir. E não é porque minha mãe não me ensinou a dividir, muito pelo contrário. Se eu estava comendo algo e alguma criança chegava perto – principalmente se fosse alguém na rua que a gente nunca tinha visto – a primeira coisa que ela fazia era pegar o que eu tinha na mão, partir no meio e entregar para a criança. Brincar na casa de alguém, então, era como andar em uma loja de cristais, tamanho o cuidado para não ferir nenhuma das lições da cartilha que ela passava antes de sair de casa.

Eu não protestava e nem desafiava, porque sabia que estava certo e que, se eu protestasse, a coisa ia ficar feia quando chegasse em casa. Mas não estou bem certa se eu gostava da situação. Tenho na lembrança alguns momentos desses que eu sentia meu espaço invadido, meu território tomado. Bem, e a vida é assim mesmo, não? Se a gente não se prepara para as invasões do nosso território, dançamos bonito.

Mas em casa era diferente. Como filha única, não precisava dividir o pedaço de rocambole. Ou a boneca. Ou o chocolate. Se alguém ia brincar em casa era porque EU queria que alguém fosse brincar comigo, então eu dividia os brinquedos porque EU queria. Novamente, minha mãe estava sempre reforçando a importância de dividir, e invariavelmente ela pegava um pedaço de não-sei-o-quê que eu estava comendo, mas não era todo o tempo. Não era como se eu tivesse um irmão para lutar pelo meu espaço.

E aí entra a Beatriz. É muito comum ver as crianças da idade dela berrando quando vem uma outra e toma o brinquedo da mão. Mais do que normal, para pequenos seres egocêntricos. Aí entram as mães com a palavra-padrão: dividir. A mãe do surrupiador (atenção, puristas da língua portuguesa: se essa palavra não existe, valho-me da licença poética para usá-la. Mesmo que escreva em prosa) entra em ação, tira o brinquedo da mão do filho, põe o dedo em riste na cara do pequeno e diz em um tom bem ameaçador “divida!”. A mãe do surrupiado fica entre um quê de vergonha e alívio, muitas vezes tirando o brinquedo da mão do filho e devolvendo ao surrupiante, porque afinal é preciso dividir.

Eu, na minha parca experiência em dividir em minha infância sem irmãos, fico perdida. É óbvio que quando a Beatriz faz o mesmo, eu entro com as duas patas na roda e faço o mesmo que as outras mães. Mas no fundo tudo me parece somente teoria, porque é isso mesmo que eu sinto: que a maioria do que aprendi sobre dividir ficou na teoria. Sem irmãos, a prática não aconteceu. E aí vem o vazio da coisa na hora de ensinar a Beatriz. “Isso, filha, divide com o amiguinho”, enquanto levo a filhota berrando para o canto da sala para que ela esqueça que a brincadeira foi interrompida bruscamente, tentando entender onde começa e termina o direito de brincar com algo que está na sua mão.

Muitos dos amiguinhos dela entendem o que dividir significa, e entendem que eles poderão brincar mais tarde quando o outro terminar. A Beatriz não. Provavelmente porque quase não há oportunidades para que ela aprenda. E para que eu a ensine.

Alguém tem uma luz para acender nesse blog escuro? Alguém?

18/01/2011 Posted by | colcha de retalhos, perguntar não ofende... | 17 Comentários

O inverno, o tédio e o descarrego

Quando lá fora o termômetro bate qualquer coisa abaixo de zero e uma criança convalescente não pode sair de casa para chutar os montes de neve, a criatividade de uma mãe encontra os limites em um curto espaço de tempo. A mãe brinca de casinha, deixa a criança detonar o laptop, põe ela sentada na mesa para mexer a massa da torta de maçã, brinca de casinha de novo, põe para escovar os dentes pela sétima vez no dia. Tudo isso com choro e ranger de dentes intercalados. E, quando menos se espera, a mãe encontra quem pagou o pato:

Mas nem de pato eu gosto...

14/01/2011 Posted by | Beatriz, diário, fotinhas | 11 Comentários

Keep walking…

10/01/2011 Posted by | Beatriz, fotinhas, poesia | Deixe um comentário

Fim da hibernação

Urso hiberna porque chegou o frio. Urso hiberna porque sabe que a comida acabou. Urso hiberna para poder sobreviver mais um ano. Eu hibernei, mas já estou acordada!

Foram 2 meses no Brasil, umas duas doenças fora de hora e otras cositas más. Não importa. O que importa é que nossa filhota continua linda, e definitivamente é uma mocinha de quase 2 anos.

Já toma água no copo, direto do bebedouro.

Não senta  mais no cadeirão para comer, e na maioria das vezes recusa comida se vier de mãos alheias. Ou melhor, as minhas.

Aliás, recusa comida. Come como um boi, mas só o que ela quer.

Navega facilmente por todas as suas identidades secretas: de Garota-Pepino para Chiquita-Banana. E nos últimos dias, Nina-Mixirica.

Aprendeu a grudar um ímã em outro. E brigar porque não entende que se um ímã estiver do lado contrário ele repele o outro.

Não fala português, não fala inglês e não fala coreano. Mas fala o dia inteiro. E como fala.

Passou meses indo para o banho como se fosse tortura chinesa. E agora, é a hora mais divertida do dia.

Passou a dormir na caminha. E vez ou outra acorda debaixo dela.

Acorda sozinha, sai do quarto e vai brincar na sala. Ou brincar de fantasma ao lado da cama da mãe.

Mas antes de acordar é preciso dormir. E isso ela não quer mais. Ir para a cama no abençoado horário das 8 da noite, só se não dormir NADA durante o dia. Se não, 10 e meia da noite ainda é dia. Para ela, é claro, porque os pais já estão babando na sala.

E a mãe só quer ir ao banheiro com a porta fechada…

 

 

 

27/12/2010 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos | 7 Comentários

… Porque alongar é importante…

Sessão de alongamento pós-banho. Momento relax, só esperando o rango e o leitinho pré-nana. Alongamento é sempre importante após o exercício físico, e Beatriz parece saber disso sem mesmo ninguém ter falado. Porque, finalmente, a três dias de completar 18 meses de vida,

A BEATRIZ ANDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOU!

Não. Não tem foto nem filminho porque a mãe patsa ficou mais patsa e congelou!

Desde sexta-passada ela arrisca uns dois passinhos, meio inconscientes até. Mas hoje, no playroom do condomínio enquanto brincava com os amiguinhos, Beatriz soltou-se da cadeira que estava apoiada e foi! Uns trinta passos, o que me pareceu muito para quem mal tinha dado três passinhos pela casa.

A filhota desencantou! Agora deixa eu procurar o telefone do meu quiroprata…

26/07/2010 Posted by | Beatriz, diário, Nota 10! | 16 Comentários

Acordando…

Foto tirada meio sem querer hoje, no restaurante, enquanto a Selma (mão dela à esquerda) aparava a Beatriz que acabava de acordar de sua soneca. Achei que ficou interessante. Poética…

24/07/2010 Posted by | Beatriz, fotinhas, poesia | 5 Comentários

Quê?

Tá olhando o quê, grandona?

17/07/2010 Posted by | Beatriz, fotinhas | 4 Comentários

Desculpa de aleijado continua sendo muleta

Broncas e mais broncas transbordando na caixa de entrada pelo sumiço. Pode dizer aí que desculpa de aleijado é muleta, mas ainda uso óleo de peroba na minha fresca tez todo dia de manhã então nem fico vermelha na hora de desfiar o rosário.

*****

O verão chegou. Com ele, temperaturas médias de 30C. E com tudo isso junto, o nascimento da Filha-Peixa, que aprendeu que brincar na água é uma das melhores coisas da vida.

Mas ainda chora prá lavar o cabelo. Vai entender…

*****

Cérebro enferrujado de mãe volta à ativa. Finalmente os livros deixam de fazer terapia pela solidão e voltam felizes aos nossos encontros diários:

The One Hundred: A Guide to the Pieces Every Stylish Woman Must Own da Nina Garcia é reservado para o momento do banho da Beatriz. Gosto dele porque é leve, divertido e, por ter as dicas numeradas de 1 a 100, posso lê-lo de trás prá frente. Exatamente com faço com qualquer revista que compro.

A Christmas Carol, de Charles Dickens. A minha estória favorita de Natal. Eu sempre esperava pelo final de ano para poder assistir ao desenho, e ficava apavorada com os fantasmas que apareciam. Mas adorava! E estou à caça do filme com o Bill Murray, lá dos idos de sei lá quando. Mas voltando ao livro: esse fica sobre o criado-mudo, para ler antes de dormir. E sonhar com fantasmas…

Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis. É a primeira vez que leio Machado de Assis, e fico feliz que esperei tanto tempo! Ele é sensacional, e eu não teria entendido nada se o lesse aos 15 anos de idade! Um escroto cínico, e como diria o marido “tem que ser muito feladapuxa prá escrever assim”! Esse tá no meu iTouch, leitura on the go

*****

Vida de expatriado também é uma m***a. Principalmente na hora de dizer adeus.

As duas últimas semanas foram difíceis. Muitos amigos queridos indo embora. São laços rompidos de anos muito importantes na nossa vida. Fiquei negação por um tempo, e aos poucos vou recuperando a lucidez e vivendo o luto. E bola prá frente.

*****

Uma minhoquiNHA fazendo ginastiquiNHA, duas minhoquiNHAS fazendo ginastiquiNHA!

Tetas devidamente esvaziadas e murchas, o modelito Michelin vai lentamente dando adeus. E eu lentamente volto à ativa. Lentamente. Tudo. Lentamente.

*****

C: Au-au.

B: Mamãe, me dá um cachorrinho?

S: Que mané cachorrinho o quê, menina! Já me bastam esses quatro caninos que resolveram sair da casinha todos de uma vez…

E como se quatro dentes rasgadores de churrasco fossem pouco, ainda vem a frustração pré-andança. E ela vira um macaquinho, trepando nas minhas pernas e querendo se enroscar no meu pescoço.

*****

Difícil é somar uns minutinhos no dia prá poder escrever. Haja disciplina.

09/07/2010 Posted by | Beatriz, colcha de retalhos, filminhos | 11 Comentários

Velocidade de dobra*

(para os leitores normais deste blog, clique aqui para saber o que é!)

*****

Ontem assistimos a Wuthering Heights (em português, O Morro dos Ventos Uivantes), na versão original de 1939, com Laurence Olivier e Marle Oberon. Eu já tinha assistido ao remake de 1992, com Juliete Binoche e Ralph Fiennes, e chorei até virar do avesso. Pois assistir a essa versão de 1939 foi surpreendente, porque a dinâmica do filme era algo muito próximo ao desenho da Branca de Neve, com músicas incidentais orquestradas e diálogos românticos, apaixonados e tirados dos melhores livros de poesia de amor do século retrasado. A estória continuou maravilhosa e assustadoramente trágica, mas o que me pegou mesmo foi o total descompasso da minha mente e do meu corpo com a tal dinâmica. Em um mundo onde eu preciso ser multi-tarefa – afinal, checar e-mails, Facebook, Twitter, LinkedIn, CNN online, lavar a louça, trocar fraldas, lavar o cabelo, jogar Farmville e ainda bater um bolo é tarefa do dia-a-dia – a mente acelera mais do que deveria, o corpo envelhece mais rápido do que deveria, a alma endurece mais do que deveria. Enquanto assistia àqueles diálogos poéticos, os olhares perdidos ao horizonte, o cenário pintado à mão, a iluminação artificial simulando a noite e o desenrolar lento da estória, eu ia mentalmente e fisicamente “empurrando” o filme, para ver se ia mais rápido. Foi o momento da minha epifania. Pensei que em 1939 as pessoas se sentavam às mesas das confeitarias para tomar um café e apreciar o movimento da rua. Ficavam lá por horas, conversando, rindo, vivendo a vida. Tentei, então, relaxar e deixar-me levar pela velocidade da estória e do filme, e com a tal mesa da confeitaria na cabeça, deixei Heathcliff e Cathy me envolverem até o final do filme.

*****

Tenho lido alguns artigos sobre crianças na pré-escola. Ou melhor, no maternal, ou qualquer que seja a denominação nos dias de hoje. E confesso que foi de cair os pelos do sovaco. Crianças com 2 anos de idade com aulas de inglês e computação? Sendo pré-alfabetizadas? Os pais, entrevistados, aplaudiam os novos currículos das pré-escolas porque não queriam ver seus filhos para trás. Para trás do que? De quem? Quando?

For Christ sake! Por que é que as pessoas acreditam que um currículo desses na vida de uma criança vai influenciar o que ela será em 20 anos???

*****

A verdade é que nossa vida hoje viaja em velocidade de dobra. Culpa nossa, culpa desta neurose de achar que vamos ficar para trás. Alguém um dia escreveu sobre o Capital Intelectual, e todo mundo acordou para o fato de que quem possui informação é o dono do mundo. E transferimos essa neurose para as nossas crias, querendo que eles absorvam toda a informação disponível e não disponível.

But, guess what! Criança não entende lógica. Criança não entende fórmulas pré-estabelecidas. Criança não segue receita. E tudo isso pela simples razão de que o cérebro delas não é maduro para tanta coisa adulta. Criança aprende brincando, com atividades lúdicas, com empirismo, com erros e acertos. No tempo dela, na velocidade dela. Devagar, muito devagar. Tirar tudo isso de uma criança é um atentado, com consequências ainda não conhecidas.

Quem fica para trás não é quem não teve uma avalanche de informação quando ainda usava fraldas. Quem fica para trás é quem não recebe formação de caráter. Princípios morais e conduta ética não se recebe em escola nenhuma. E um ser humano sem receber o básico dentro de casa, não vai ser dono de porcaria nenhuma. Muito menos do mundo.

*****

Quando a Beatriz for para a escola, eu vou ser uma mãe muito, muito chata. Me aguardem, tias, me aguardem…

21/06/2010 Posted by | colcha de retalhos, Nervoso | 14 Comentários