Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Blecaute

Voltei a postar. Meu sumiço não foi por falta de tempo. É óbvio que com um bebê de 14 meses o tempo fica cada vez mais escasso e os dias tendem a ter umas 4 horas, somente. A verdade é que eu precisei de um tempo para reprogramar o meu cérebro.

Antes de ser mãe, eu convivi a maior parte do meu tempo com amigas no trabalho que viraram mãe e continuaram trabalhando. Acompanhei o sofrimento de cada uma delas a cada resfriado, a cada febre, a cada reunião de pais perdida, cada conquista alcançada e não festejada no exato momento em que aconteceu. E acompanhei cada relato apaixonado do momento do reencontro a cada final de dia, a magia dos finais de semana, do aconchego no peito para mamar sendo descrito como um momento só dos dois, mãe e filho. Essa era a realidade que conheci. Ainda outras amigas tornaram-se mãe e dedicaram-se integralmente a seus filhotes. Essas, eu pouco acompanhei. Claro, porque trabalhava.

Eu ganhei o prêmio máximo em poder ficar em casa com a Beatriz em tempo integral. É uma das melhores coisas que poderiam ter me acontecido, e aconteceu. Já falei isso um milhão de vezes e quem me conhece e acompanha os meus relatos sabe disso, então let’s cut the crap. Mas a rotina é massacrante. Passei por umas boas duas semanas me perguntando todo dia – que raios fui fazer da minha vida – tamanho o cansaço e o desgaste. No início me sentia culpada por ter esses pensamentos, mas depois entendi que eles são mais dos que normais: é o melhor mecanismo de encontrar novamente o chão. Deixei de me sentir culpada e passei a usar esses momentos dark para voltar ao centro.

E cada vez mais os relatos das minhas amigas me vinham à mente, e percebi que ser uma mãe que trabalha fora é como ter um namorado morando em outro estado ou país: toda vez em que há o encontro é uma festa, uma lua-de-mel. Daí o final de semana acaba e fica a expectativa do outro, com mil planos, e antes mesmo de ele terminar a saudade já bate forte.

E quando se é mãe 24 horas por dia/7 dias na semana, o que mais se quer é um momento, um momentinho só que seja, aonde o pensamento não esteja voltado para aquele bebê que drena absolutamente tudo. Tudo. Drena. Tudo. Os milhares de nãos ecoando pela casa, a constatação diária de que sua casa é um campo minado e que somente mãozinhas minúsculas conseguem achar o perigo, almoços e jantares que duram mais de uma hora e que terminam com comida por todos os lados, o banho que de uma hora para outra virou tortura medieval.

Tudo isso, dia e noite, noite e dia, cansa. E não estou falando de cansaço físico.

Já ouvi de muitas mulheres que pararam de trabalhar para cuidarem dos filhos dizerem que elas emburreceram, que a única coisa que consegue falar é sobre filhos, cocô, papinha e preço das fraldas. Não, mulheres, nós não emburrecemos. O problema é que não há espaço físico no cucuruto para entrar alguma coisa diferente disto. Toda vez que vou à livraria eu compro um livro novo, que vai para a pilha dos “quem sabe um dia eu volto a ler”. Desde que a Beatriz nasceu eu consegui terminar um único livro que não falava de bebês. Tenho uns outros tantos começados ao lado da cabeceira da cama. Eu me deito, pego o livro e já sinto meu corpo astralmente flutuando para dentro das páginas, e em segundos faço parte da trama. Quando estou no auge daquela página, dou um pulo e sinto a baba escorrendo em um dos lados da boca… Apagão total.

Todo dia eu coloco na CNN no afã de saber o que acontece no mundo. Meu recorde, ultimamente, são 3 minutos. A concentração no assunto se vai com o som de duas mãozinhas batendo no meu celadon coreano, ou com o som de uma cabeça estatelada no chão – seguida de um choro estridente. Adotei, então, o esquema “conteúdo do Estadão”: eu ligo na CNN e fico lendo as notícias do rodapé da tela. Sei de tudo, e não sei de absolutamente nada…

O mais tragicômico é quando o Rê vai comentar de alguma coisa que alguém disse em algum lugar que estivemos, ou em algum almoço que esporadicamente fazemos aqui em casa. Na maioria esmagadora das vezes, eu não tenho a menor noção do que ele está falando. Quando começo a conversar sobre algo, tenho que sair no meio da estória para acudir a Beatriz; ou chego na metade da conversa, então não entendo patavina.  “Você viu o que o fulano falou sobre nãnãnã?”. “Er… não”. “Naquela hora, em que o sicrano contou que foi para tchutchutchú.” “Er… sicrano ‘tava junto?”. E por aí vai.

Agora me perdi. Também pudera: esse post começou a ser escrito há uma semana, e um monte de coisas que estavam prontas para serem vomitadas sumiram. Melhor assim, talvez não era para escrever mesmo. Por certo eu seria mal-entendida. Em outra oportunidade eu volto a falar sobre elas, com a cabeça fresca, se sentir que é necessário para meu reprograma.

Qualquer dia desses eu volto para vomitar falar mais um pouco…

(Obrigada pela preocupação de todos e mensagens recebidas! Sim, está tudo bem!)

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01/04/2010 - Posted by | colcha de retalhos

11 Comentários »

  1. Não se sinta culpada por nada prima. sinto-me exatamente assim , às vezes sem cansaço físico mas com um esgotamento total já que uma administração de casa, loja, filhos., marido, finanças, gastronomia é demais para nós seres ´~ao fortes!!!!!!!!!!!!!!! Beijos.

    Comentário por marta | 02/04/2010 | Responder

  2. Viu como a gente se perde sem querer!

    Comentário por marta | 02/04/2010 | Responder

  3. ?

    Comentário por marta | 02/04/2010 | Responder

  4. Por um breve momento achei que eu estivesse escrito o post, tamanha a semelhança com a miha realidade. O que acho pior de tudo é encarar o povo que acha que emburreci ou que estou perdendo meu tempo porque deixei de trabalhar fora e cuido da filha em tempo integral. Mas vai ser sempre assim, educar hoje em dia é desperdício de tempo. E demos graças aos jornais on-line, estou sempre informada hohoho, mesmo que seja só pelas manchetes. Bj

    Comentário por Marcela | 02/04/2010 | Responder

  5. É Selma…”ninguém disse que seria fácil” foi a frase que mais ouvi e que mais odeio até hoje.
    Ainda mais eu que sou viuva de marido vivo, fui casada com um fantasma, e mãe solteira com marido fantasma/morto/ausente/irresponsável……
    Sempre fiz tudo sozinha.
    Você ainda tem o Renato que é maridão.
    Essa fase passa sim, pode ter certeza. Mas enquanto não passa (e vai parecer SIM uma eternidade) tente se acalmar, é o que eu posso dizer, pois tudo o mais que eu te falar vai te desesperar ainda mais.
    Até hoje, a única hora que eu me conecto com o mundo é a hora que o Matheus vai para a escola.

    Mãe!

    Abração/força…

    Comentário por Isabel | 02/04/2010 | Responder

  6. se conselho fosse bom se venderia, mas temos nossos filhos para o mundo e nao para nós, portanto tens que manter o teu ser e somente tentar se desdobrar para atender e dar a Beatriz aquilo que podes, amor, mas não se perca voce é uma pessoa e necessita de vida social, laboral e se desdobra para manter a marternal
    beijos
    nao esqueça que a Beatriz um dia vai passar por tudo isso que voce esta passando e qual serão as ecolhas que ela terá?

    Comentário por araci | 03/04/2010 | Responder

  7. Oi Selma, minha vida foi exatamente assim por 2 anos, qdo meus 2 filhos nasceram. Eu curti muito cada uma das conquistas deles durante esse período, mas tb me cansei muito, tb me senti inútil, burra, cansada, irritada, impaciente. Aí voltei a trabalhar e percebi q, em vez de me cansar mais, o trabalho vale mais como descanso… 😛
    Tenho a sorte de ter um trabalho tranquilo, q me permite sair às 3 da tarde pra pegá-los na escola e passar o resto do dia c/ eles, e me sinto bem melhor assim. Mas isso não é conselho, é simplesmente o que funciona pra mim. A verdade é q ganha-se e perde-se tanto ficando em casa como trabalhando. Bjs!

    Comentário por Karina | 13/04/2010 | Responder

  8. BEM-VINDA AO CLUBE! VOCÊ TRADUZIU TUDO QUE EU PASSO E SINTO. POR QUE ACHA QUE O BLOG ESTÁ NAQUELE ABANDONO DE DAR DÓ?

    Comentário por Alena Cairo | 15/04/2010 | Responder

  9. […] Ela, a Selma, disse finalmente o que eu não tenho conseguido escrever aqui há tempo… Me senti […]

    Pingback por Finalmente! « A vida em palavras | 15/04/2010 | Responder

  10. […] TV para poder fazer cocô, lavar a louça, cozinhar e navegar na net. Mas não se preocupe, porque com aqueles 3 minutos diários de CNN você também fica […]

    Pingback por Beatriz, sua mãe é um relaxo « Sentada na Pia | 27/04/2010 | Responder

  11. Selma, tenho uma amiga que diz: “Ser mãe é padecer na pqp!”
    rsrsr

    Comentário por Lúcia Soares | 30/04/2010 | Responder


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