Sentada na Pia

Porque esse poderá ser o último recurso de um pai e uma mãe de primeira viagem na Coreia do Sul…

Amnésia

Quando eu conversava com algumas mulheres por aqui, lá no primeiro mês depois do nascimento da filhota, e desfiava o rosário das lamentações, o que eu mais ouvia era: “Sério? Nossa, não consigo me lembrar de nada.” Eu não acreditava no que eu estava ouvindo. Como assim, não lembra? Te botam no meio do matagal, o capim tá batendo no pescoço, a enxada está cega, e… não lembra de nada?

Bom, eis que eu também entro para as estatísticas. Comecei a fazer um revival do primeiro mês e tudo o que consegui foram algumas imagens e sensações. Por mais que eu me esforce, não vem nada muito detalhado. Me lembro do momento em que a Beatriz veio para o quarto e para o meu colo para mamar; me lembro vagamente da luta para pegar o peito; e me lembro também que ela dormiu a primeira noite deitada na minha barriga. Me lembro da primeira troca de roupa, ainda no hospital, e a suadeira que foi vesti-la em um body (o início do meu ódio pelos tais…). Me lembro da primeira crise de choro em casa; das madrugadas amamentando na sala porque precisava de todas as almofadas e travesseiros; do pânico que foi sair com ela pela primeira vez; dos banhos regados a gritaria.

Mas há três coisas que eu me lembro com perfeição.

A primeira era quando chegava a hora do meu banho. O box de banheiro era o meu castelo, a minha fortaleza. A única hora do dia em que a Selma voltava à superfície. Lá dentro, era eu comigo mesma, 10 minutos do meu dia somente para mim.

A segunda era a solidão. Era tão grande que doía o peito. E, de quebra, aquela saudade de mim mesma.

A terceira era a sensação de ser refém da minha própria filha. Ela me botava medo, medo, medo. Quando ela acordava, ou chorava, ou pedia para mamar, eu sentia uma coisa gelada subindo e descendo pela coluna. E eu não entendia como é que eu podia me sentir dessa forma.

Apesar da lembrança dessas três coisas ser vívida, a impressão é que nada disso aconteceu comigo. É quando eu me curvo à Mãe Natureza, que sabe bem o que é preciso para que a raça humana continue a se multiplicar: amnésia.

Anúncios

09/06/2009 - Posted by | colcha de retalhos

9 Comentários »

  1. Oi, Selma,

    Acompanho o seu blog há algum tempo, tenho uma filha de exatos dois meses e me identifico demais em alguns aspectos. Na realidade, quase todos… O parto, os choros, o cocô preso, a falta da família (moro em Viena e a minha mãe está aqui pra ajudar, mas quando ela viajar… hoho…), a falta de energia quando ela passa o dia no peito… E depois de ler sobre os seus 10 minutos no banho, tive que rir, porque é assim que eu me sinto! É o tempinho em que eu respiro e me vejo como a mesma Ione de antes do parto.

    Por isso eu gosto de ler os teus posts, assim sei que tudo é normal e passageiro – sim, porque aqui eu só conheço bebê santo, que dorme 4 horas seguidas, mama e dorme de novo.

    Muita energia positiva pra vocês!

    Ione

    Comentário por Ione | 10/06/2009 | Responder

  2. Bendita amnésia…bendita…hehehe
    Mas vai ficar uma delicia quando ela começar a conversar com você…vai ganhar uma amiga 24 horas!

    Comentário por Isabel | 10/06/2009 | Responder

  3. Elas serão ainda maiores pelo tanto de dedicação que temos para com nossos filhos. Amnésias boas e ruins. Tudo muito sadio e sábio.Beijos!

    Comentário por marta | 10/06/2009 | Responder

  4. Não fosse assim, toda mulher teria apenas um filho, né?
    Eu fiz um diário pra cada um dos meus e não tiveram paciência pra ler tudo. Era detalhista e acham cansativo ler…Imagina pra mim, então, vivendo aquilo tudo.
    Às vezes pegava pra reler e realmente não acreditava que tinha vivido aquilo!

    Comentário por Lúcia Soares | 10/06/2009 | Responder

  5. Adorei a ” amnesia” !!!
    Super beijo

    Comentário por Natalia | 10/06/2009 | Responder

  6. O primeiro nome que vem a mente é surpresa. Pouca gente tem coragem de contar as coisas como são antes que o bebê nasça. Sabe o que parece? Que acreditam piamente que ser mãe é padecer no paraíso… Vingança secreta talvez. Depois vem hormônios… oh enxurrada mais ingrata. Senti-me muito instável com eles no primeiro trimestre do Vini. (Não posso reclamar ele foi muito tranquilo, já a mãe, nem tanto). Ele tinha acessos de cólicas 01 vez por semana, a tarde inteiiiiiira… Raras tardes é verdade, mas que colocaram a prova a minha sanidade. E olha que ela esteve por um fio quase invísivel… Meus momentos de resgate no banho, no sono ou na manicure eram respeitadíssimos. Eu precisava disso para voltar a sentir quem eu era e também para estar inteira para o pequeno. (Percebo que raramente a geração mais antiga de mulheres compreende isso, talvez pois não tenha tido a oportunidade de entender quem eram). Senti-me diferente desde os primeiros dias, até hoje não reconheço ainda e totalmente o meu novo corpo (que não é o de antes da gestação, que não é mais o da gravidez), talvez por isso a menstruação nunca mais tenha sido também a mesma. Sinto-me de “volta”, mas sou outra também. Uma vaidade que até então passava longe… Um amor que nunca julguei capaz de sentir… Uma nova mulher se fez durante a gestação, nos dias críticos após dela e se faz até hoje. Amnésia não sei se usaria esta palavra, pois guardo na memória muitas intempéries, assim como as muitas alegrias. Talvez ouso dizer que o coração amplia o espaço de amor e se predispõe a passar por tudo de novo…

    Comentário por Lu | 10/06/2009 | Responder

  7. Solidão, entendo eu, durante o dia apenas, correto?

    Comentário por Renato | 11/06/2009 | Responder

  8. Selma, uma amiga minha me falava a mesma coisa sobre a tal amnésia e eu duvidava: como assim eu não vou me lembrar de fatos tão marcantes???
    Mas a mãe natureza é mesmo sábia e faz a gente se esquecer. Hoje, dezesseis anos depois, eu acho que não conseguiria nem trocar uma fralda!
    Beijos.

    Comentário por lucy in the sky | 11/06/2009 | Responder

  9. Que Deus abençoe TODAS as mulheres e que proteja este autora e este blog! Muitos bonitos os seus relatos… mesmo. ^^

    Tudo na vida tem um propósito… porque será qeu voces foram parar aí do outro lado do mundo!?

    ^^

    Beijo.

    Comentário por Victor Westmann | 18/06/2009 | Responder


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: